02
Fev
13

NA MORTE DE JAIME NEVES: «ERA UM FASCISTA? POBRE GENTE NÉSCIA…»

 imagem-jaime-neves-antiga                                                                                                   Conheci Jaime Neves no dia 25 de Abril de 1974: estive na sua “Chaimite” que comandou o cerco quartel-general da Legião Portuguesa, em Lisboa. Por isso testemunho, tendo estado fisicamente nos lugares, que Jaime Neves foi um dos “capitães de Abril” e afirmo que aos capitães de Abril devo não ter sido preso pela PIDE/DGS pela terceira vez: eu seria um dos sessenta detidos a 28 de Abril, nas chamadas prisões preventivas do Primeiro de Maio. A bernarda evitou-o.

Conto: estive no Largo do Carmo, onde assisti à rendição de Marcelo Caetano, cercado pelas tropas comandadas por Salgueiro Maia. Fora acordado às cinco da manhã por um telefonema do António Fradique Caldeira: “ouve a rádio”. Saltei da cama e corri para a Calçada dos Barbadinhos (aí morava então), passei diante do quartel de Sapadores e deparei com o bom do Lamego – com quem estivera preso em Peniche – em pleno encontro clandestino. Coisas! Dei-lhe um encontrão com um braço: “Vai já para casa. Está a decorrer um golpe de Estado!”, avisei-o. E segui para a Baixa lisboeta.

Civil empedernido, temia que as ruas fossem tomadas pelos ultras de Kaúlza de Arriaga – havia rumores de que ele preparava um movimento militar. Fiquei tranquilo quando me apercebi de que a sedição era de sinal contrário. E nela mergulhei de cabeça: afinal, andara, três dias antes, a distribuir, à sorrelfa, comunicados de um apelidado Movimento das Forças Armadas que me tinham chegado às mãos – “Imaginem um governo com o Spínola, o Mário Soares, o Sá Carneiro, o Álvaro Cunhal…”. Era um delírio surrealista! Por causa dessas e doutras, muita gente se convenceu de que eu estive envolvido na Abrilada. Não estive, nada tive a ver com “aquilo”.

Na Baixa, no Rossio e já com o primo da minha mulher, o Tó, deparei com a coluna de Jaime Neves, que seguia para a Legião. Cavalguei-lhe para a carlinga do “Chaimite”… e ficámos amigos desde então. Não fui trabalhar nesse dia para a redação da Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, que ficava na Rua António Maria Cardoso, mesmo em frente da sede da PIDE! Mais tarde soube do desespero do Peixoto, o “patrão”, que lá se metera, convencido de podia assistir à capitulação da polícia política salazarista. “Tirem-me daqui!”, caguinchou  ele ao telefone, quando começaram os tiros. Coitado: era tio do José Luís Feronha, que fora meu companheiro na Cadeia de Peniche, meu colega no “Comércio do Funchal” e razão pela qual acabara por transformar a Enciclopédia num antro de subversão – com o Joaquim Pinto de Andrade, o Ilídio Machado, o David de Carvalho (chefe de redação e uma espécie de “patriarca” do anarco-sindicalismo) e outros.

Voltei a encontrar-me com o Jaime Neves pouco depois do 11 de Março, desabafando das dúvidas que me assaltavam. Eu liderara então – respondendo a um apelo da AOC – a barricada em Sacavém, às portas onde alguém disse ter sido encontrada uma carrinha funerária carregada de armas! Nada mais falso. Essa carrinha nunca existiu. Indignado com a mentira, dirigi-me à redação do “O Século”, que propagou a aldrabice: “estão a considerar-me charlatão?”, interpelei um camarada, militante do Partido Comunista. “Que eu tinha que compreender as necessidades da propaganda…”, explicou-me ele. Resolvi romper com aquela “esquerda”: não era esse o meu caminho. Para mim, só a verdade seria revolucionária.

E narrei o episódio ao Jaime Neves, que se indignou com a atoarda reles. Apoiou-me: “vai em frente”. Foi essa a razão de começarmos a virar as costas ao PREC: tínhamos de travar “aquela coisa”, mesmo que tivéssemos que vender a alma ao diabo. Anos mais tarde, consideraram-me (erradamente) ex-comando. Eu fiz a campanha eleitoral do general Soares Carneiro. Fui eu quem, num restaurante em Setúbal, lhe transmitiu a notícia da morte de Francisco Sá Carneiro: “Aconteceu uma desgraça, meu general. O Cessna caiu”. Ele primeiro não acreditou. Mas logo depois veio a confirmação dada por um telefonema para o Dr. Carlos Macedo. As lágrimas rolavam-me cara abaixo. “O que se passa? O que se passa?”, perguntavam-me. Eu, nada. Batiam-me amigavelmente no dorso: “Um comando não chora”. Fiquei com a fama.

Jaime Neves riu-se dela: “Então, agora és comando?”. Eu nunca fizera tropa… considerado “indigno” do serviço militar pelo tribunal plenário de S. João Novo, no Porto, que me condenou a três anos e meio de prisão mais medidas de segurança (foram, ao todo, cinco anos) por “atividades subversivas contra a segurança do Estado”… eu era contra a guerra colonial, a favor das independências dos territórios africanos.

Encontrávamo-nos de quando em vez, Jaime Neves e eu, sempre que ia a Lisboa. Até que mandei às malvas a RDP, cansado e magoado pelas canalhices políticas de administradores que devem responder publicamente pelas pulhices que cometeram, zarpei de Portugal definitivamente. Até que Jaime Neves faleceu. Gente sem memória, considerou-o fascista. Pobre gente, néscia, desconhecedora das coisas…  

Nuno Rebocho


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