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OS «BATACLANS» QUE CONHECI: MEMÓRIAS DE JORGE AMADO, DA CRUZ VERMELHA E OUTRAS COISAS

 bata 1Nos tempos em que, pelas mãos do comandante Alvarenga, trabalhei como assessor na Cruz Vermelha Portuguesa, aí por volta de 1984/5, referíamos a instituição por “Bataclan”, dado ser, segundo dizíamos, o lugar de Portugal com mais coronéis por quilómetro quadrado. Andava eu então pelo jornal “A Tarde” e acumulei funções, embora soubesse que a situação não seria curial: muitos de nós, jornalistas, aviltávamos e desprezávamos o Código Deontológico que só veio a impor-se (ou quase) anos mais tarde. E ainda bem.

Lembro-me disto quando a telenovela “Gabriela”, passada na SIC, chega ao fim, acabando assim o abastardamento do romance de Jorge Amado e mesmo da telenovela com igual nome, que passou na RTP, onde o assassínio do bom livro do escritor brasileiro já se evidenciava, mas não tão descaradamente: ficou ela reduzida aos aspetos mais picarescos e sexuais, eliminando-se por alegadas razões comerciais o que na história se descobre de retrato social e político, relatando-se nele a luta entre terra-tenentes e os emergentes comerciantes, surgindo o povo como translúcido pano de fundo. No entanto, talvez por ser a primeira telenovela que se exibiu em Portugal, por causa dela as ruas ficavam desertas durante o horário de folhetim, não querendo ninguém – diante dos televisores – perder pitada dos seus múltiplos episódios.

Tornara-me um leitor de Jorge Amado, por cuja obra me interessara desde menino e moço, desde os tempos em que frequentava uma casa no Calhariz de Benfica (onde, diga-se, sexualmente me iniciei: tinha eu uns 18 anos e ela, então casada e mãe, com o marido ausente na guerra em Angola, era uma balzaquiana que rondava os 33). Devorei os livros de Jorge Amado existentes na sua biblioteca: “Cacau”, “Subterrâneos da Liberdade”, “Terras do Sem Fim”, “Jubiabá”. Isto foi por volta de 1962/63. Anos mais tarde, morei em Alcabideche na vivenda Jubiabá, mal crismada de “vivenda dos ricos” e roteiro, quase obrigatório, de ralis automóveis que comportavam a pergunta “quem foi o autor de”.

Nesse tempo, ainda não conhecia Jorge Amado, a situação manteve-se até um encontro que tivemos em Cascais. Nos dias que passei em Salvador da Bahía, não me deparei com ele, apesar da minha frustrada tentativa de lhe falar em sua casa, em Rio Vermelho, e de certa indisposição que contra si criei, depois de um incidente na Casa-Museu Jorge Amado, em pleno Pelô: na exposição fotográfica nela patente, tive o atrevimento de notar que ali faltava uma foto – a que o escritor tirara em Moscovo, sorridente, ao lado de José Estaline. O retrato é muito conhecido, faz parte da propaganda estalinista, mas os seguranças consideraram provocatório que o tivesse lembrado. Depois do golpe de estado militar em Portugal, no ano de 1974, vivi o mesmo prurido nas pessoas que eu sabia de salazaristas e que, de um dia para o outro, passaram a ser ferozmente anti-ditador. Sempre me ofendi de tal apressado e conveniente viracasaquismo.

Jorge Amado era, no entanto, uma figura mítica da Bahia. Ex-comunista (o que não é um mal), foi pai de santo e conferiam-lhe uma autoridade sacrossanta, ao ponto de, praticamente, só ele ter o direito de ali publicar livros, os demais autores condenados a ridículas tiragens marginais. Eu vi e adquiri alguns desses volumes. Claro que o escritor não tinha culpa do farisaísmo social que, a seu respeito, se engendrou e levava que a grande maioria das pessoas não lhe lesse as obras, embora delas se ufanassem e poucos tivessem bibliotecas visíveis em sua casa. Mas, que eu saiba, nunca a tanto se opôs. E isso, francamente, magoava-me – tive depois oportunidade de lho dizer.

O nome de “Bataclan” saltou-me à vista de outra feita: em Brasília. Acabara de entrar no hotel na noite em que aí cheguei e as luzes de um letreiro agrediram-me os olhos, quando fui à janela: “Bataclan”, “Bataclan”, “Bataclan”. Quis apreciar o lugar. Como a capital do Brasil é cidade demasiado organizada para o meu gosto – uma coisa aqui e outra ali, sem cruzamentos de ruas, atravessamento de artérias apenas por túneis – tive que percorrer uma distância considerável para alcançar o que me parecia perto: “Bataclan” era uma espécie de pub, semi-deserto, que logo me desinteressou e enxotou. O problema maior sucedeu no regresso ao hotel: descobri, do outro lado da avenida, uma flausina toda aperaltada. Corri em busca do túnel mais próximo e, chegando ao passeio contrário, deparando no negrume da noite o que me parecia um vulto feminino, e dela ressaltou nos meus ouvidos uma voz de baixo que me arrepiou e afugentou.

Com estas lembranças fui-me arredando da Cruz Vermelha Portuguesa onde trabalhei, de resto, por pouco tempo. Tive que nela lidar de perto, para escrever o seu boletim, com o coronel (tinha que ser) Miranda Dias, que sempre iniciava as suas intervenções com a evocação de que desbastara 500 cavalos. Quando desconfiei que fora a falar que os amansara e os submetera ao seu domínio, pus-me em fuga da Cruz Vermelha e nunca mais lá pus os pés.

Nuno Rebocho


1 Response to “OS «BATACLANS» QUE CONHECI: MEMÓRIAS DE JORGE AMADO, DA CRUZ VERMELHA E OUTRAS COISAS”


  1. 1 Euro2cent
    Janeiro 28, 2013 às 10:00 pm

    Deve haver uma autêntica mina (até nas duas acepções da palavra …) de histórias sobre as nossas ONGs/”non-profits”/fundações …

    Se tiver mais algumas para contar, seria interessante. Obrigado por esta.


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