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Jan
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NO ANIVERSÁRIO DO «EXPRESSO» . LEMBRANDO JOÃO CARREIRA BOM

 Recordar o “velho” Expresso não se pode sem lembrar João Carreira Bom. Eu chamava-lhe de “Jãozinho das Pevides” e fui seu companheiro de estúrdia desde os dias em que veio de Aldeia Nova de S. Bento para Lisboa, corriam os idos de 1963. O João era, por então, empregado de escritório e morava num quarto para as bandas da Baixa; só anos mais tarde (depois da tropa feita) “assentou praça” no jornalismo, onde veio a destacar-se.

No conto, andou a desbravar as lides literárias. Trazia recomendação do Urbano Tavares Rodrigues, exposta em cartão-de-visita, que lhe dava acesso a algumas amizades e intimidades, e ele retribuiu o gesto com dedicatória sua no livro de contos, “Subgente”, que publicou nessa época, com prefácio meu. Por essa altura, o João escrevinhava no “Juvenil” do República e passeava-se pela leitaria Passo, no Rossio, onde desmamou comigo coisas da literatura na mesa do Armando Ventura Ferreira, José Palla e Carmo, Manuel da Fonseca, Manuel Ferreira, António Borga e muitos outros.

Gostava de lhe dar o braço, bochechar aguardente para criar o cheiro, tratá-lo por irmão e ir abancar numa leitaria da Praça de Londres onde, fazendo o papel de bêbado, insultava a aprumada e rica freguesia, enquanto o João, imitando um preocupado irmão, gritava: “anda para casa, mano! O que o pai vai dizer?”. Deste jeito brincávamos e industriávamo-nos na “luta de classes”. Certa feita, com o Fernando Grade, o Hugo Beja e o Júlio-António Salgueiro, descemos do Chiado para o Rossio, lado a lado, passeando cágados à trela, com desespero dos apressados transeuntes que iam ouvindo tiradas anti-salazaristas. Chamámos a essa atrevimento e arrojo anti-fascista de “manifestação dos cágados”.

Com ele alinhei na luta contra o encerramento da Sociedade Portuguesa de Autores por ter atribuído o Prémio ao “Luuanda”, de Luandino Vieira – eu até optava que fosse ao “Nós Matámos o Cão Tinhoso”, de Luís Bernardo Honwana, meu antigo colega do Liceu Salazar, em Lourenço Marques – e entrei pela casa e pelo relacionamento com Natália Correia e Dórdio Guimarães. Por via disso, dessa agitação toda, acabei como militante do PCP, do qual me maoizei”, o que provocou o meu dissídio com os comunistas nas vésperas de ser enviado para Moscovo. Então morava eu numa “república” da Rua Pascoal de Melo, em Lisboa, com o José Casanova, o José Rolim, a Sara Amâncio e mais ilustre gente.  

Perdi-lhe o rasto, levado pelos sarilhos políticos que me atiraram para o Porto e para as masmorras do Forte de Peniche por alguns anos. Só vim a reencontrar o João Carreira Bom em 1973, pelas mãos do Carlos Marinheiro. Alinhámos, nessa altura, no “Comércio do Funchal”, o jornal cor-de-rosa, que o Vicente Jorge Silva trouxera para Lisboa, com o Ricardo França Jardim. Eu escrevia com pseudónimo (L.H. Afonso Manta), para me defender da censura e estreitei amizades com o Serafim Lobato, o José Luís Feronha, o Vítor Catanho, o João de Almeida, o Ançã Regala, o Joaquim Vital e tanta outra gente já desaparecida do mundo dos vivos. Enfim, foi uma redação e peras, como se usa dizer.

Reuníamo-nos em Benfica, em casa do França Jardim, para discutir e preparar o jornal. Havia entre nós discussão de ferver bicho. Havia jornalistas já encartados (casos do Carreira Bom, do Feronha, do Lobato), o que lhes dava um certo destaque, mas todos fazíamos o mesmo fogo contra o regime e nisso nos entusiasmávamos. Até que fui preso pela PIDE pela segunda vez, até que o 25 de Abril de 74 aconteceu e as divergências políticas do nosso grupo, vieram ao de cima. Lembro-me da noite em que fingi dormitar e descobri que o Carreira Bom, juntamente com o Freire Antunes, o Ançã e o Vital alinhavam no MRPP: foi o seu sufoco. Já o Ferro Rodrigues tinha saído.

Mais tarde, cada qual na sua horda, reencontrámo-nos nas bancas dos jornais. Com o Feronha e o Catanho, andei pelo “Jornal Novo” e “A Tarde”, enquanto o Carreira Bom, vindo de “O Século”, enveredava pelo “Expresso”. Acabou por se ensimesmar com o Francisco Balsemão, saindo do semanário que lhe deu nome e criando uma empresa com o Marinheiro. ali para os lados de Benfica, onde recuperámos a amizade velha e tantas vezes nos encontrámos nos balcões da Ulmeiro. Até que a morte o levou: com um ataque cardíaco fulminante enquanto fazia amor com uma advogada. Quer dizer: João Carreira Bom morreu amando, tal como sempre viveu. Apaixonadamente.

Nuno Rebocho


2 Responses to “NO ANIVERSÁRIO DO «EXPRESSO» . LEMBRANDO JOÃO CARREIRA BOM”


  1. 1 Euro2cent
    Janeiro 10, 2013 às 8:05 am

    Obrigado pelas recordações. Obrigado também pelos outros posts do blog.

  2. 2 Amílcar Monge da silva
    Março 11, 2014 às 9:57 am

    Era um amigo muito chegado com quem todos os dias mantinha longas conversas. Não resisto a contar uma quando ele estava em licença de mobilização, prestes a embarcar para Angola. Falávamos da guerra e dos excessos cometidos por ambos os lados e eu comentei algo como: E se algo te acontece a ti como pensas que irei reagir se apanhar um desses terroristas? E ele disse: Poderão ser terroristas mas lutam por aquilo que é seu. Se pensas assim porque não “dás o salto” e evitas uma situação com que até não concordas? Respondeu-me algo que nunca mais esqueci: -Não dou o salto por duas razões; primeiro é que não quero cortar com todos os meus amigos, família e modo de vida a que estou habituado; segundo é que, se “der o salto”, há outro que vai no meu lugar e até pode morrer lá. Pelo menos o nosso treino de palavras cruzadas para o jornal República serviu-lhe de algo pois foi como furriel cripto e não como atirador.


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