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Dez
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NA MORTE DE MANUEL LAGE

Manuel+Lage1Morreu Manuel Lage: esta foi a última notícia que ele transmitiu ao mundo. Com Lage convivi dores e arrelias, alegrias e preocupações. Lembro-me dos tempos em que ele me visitava o meu gabinete então no Ministério das Obras Públicas, na Praça do Comércio, recolhendo informação (nisto se distinguia dos escribas de hoje, que pendem a confundir informação com propaganda) e as minhas ideias acerca da ANOP – à sua extinção corajosamente se opôs – e esteve a meu lado nas atitudes que houve então que tomar: ambos tínhamos então o mesmo “vício” – não sobrepor os sempre eventuais e contingentes interesses ideológico-políticos a rigorosos padrões profissionais. Lage pertenceu a uma velha “escola” de jornalismo, na qual se destacaram Manuel Figueira e Manuel Ruas, falando de pessoas com tão diversa ideologia como eles. Hoje já não se fabrica.

Encontrava-o, o mais das vezes, na Rádio Comercial. Ele era dos poucos que sabia ter eu colaborado em, pelo menos, dois dos seus programas – o do Carlos Amorim (sobre Turismo) e o de Castelar – e de ter estado quase a entrar, pelas mãos do Diamantino Faria, para o Rádio Clube Português (assim se chamava nessa altura), quando, nos anos 60, vim de Moçambique. Magro e de bigodinho, chamava-me amiúde para dois dedos de conversa.

Reencontrei-o na Câmara de Sintra e esteve algumas noites no pub-restaurante-galeria do meu amigo Ernesto Neves, na época em que eu organizava aí as Festas da Poesia. Foi um recordar de “velhos tempos” (em que lá ia ao encontro do Fernando Tavares e da Cristina Noivo, com o falecido Cartaxo e Trindade) e inclui-se nessa quadra a vez última que com ele estive demoradamente. Depois disso, os acasos da política e as vicissitudes da vida atiraram-nos para diferentes bandas e perdi-lhe o rasto, pesem embora alguns encontros de fugida. Até agora, até o luto.

Que o Lage guardava segredos, mesmo que tocassem de perto amigos seus. Nunca me contou, apesar das minhas insistências, o que envolveu a minha gorada ida para Macau: eu fora convidado pelo Roque Martins para assessor do almirante Almeida Costa, então governador desse território. Eu acabara de sair do Ministério do eng. Viana Batista, devido à derrota eleitoral, e o convite caía como sopa no mel: o Roque Martins escrevera-me que eu fora admitido como assessor, que a passagem já estava a caminho, que eu largasse tudo e me aprestasse a partir. O que valeu foi a minha previdência: se eu ficasse à espera do bilhete, ainda hoje continuava em Lisboa.

Não sei o que se passou, que intriguice e que mexericos fizeram parte dessa certamente sórdida conspiração que entreteve a diminuta colónia portuguesa de Macau, na qual nunca afundei os pés: eu sei, até por experiência própria, que quanto mais pequenos são os mundos, maior é o clima de intrigas que se vive. Ninguém me contou o que então ocorreu, que se mantém para mim um mistério, porventura talvez porque não estivesse particularmente interessado em zarpar. E, tendo em conta o que depois aconteceu em Macau com o meu amigo António Ribeiro, não terá sido nada que me agradasse saber.

A verdade é que o Lage se encontrava nessa época às portas da China, que conheceu de perto a razão das coisas. Mas permaneceu mudo. No mesmo saco de silêncios meteu o convite que me fizeram para ir para Bratislava abrir um centro cultural português… que nunca esteve aberto. Contei-lhe isso, uma tarde, na Casa da Imprensa e expliquei-lhe os motivos que me levaram a recusar: o desconhecimento da língua que se fala na Eslováquia e a nula crença que tive nessa oferta, a qual me cheirava a esturro – ela surgia na mesma altura em que uma famigerada (hoje como tal reconhecida) administração socialista da RDP pretendia mover-me um processo disciplinar com vistas a despedimento, oficialmente por me opor ao relógio de ponto para os jornalistas, o que contrariava uma promessa-garantia dada e confirmada à Comissão de Trabalhadores de que eu fazia parte. Mas os motivos desse processo eram mais simples – visava silenciar-me, já que me tornara incómodo e desbocado à frente da Antena 2.

Nuno Rebocho


1 Response to “NA MORTE DE MANUEL LAGE”


  1. 1 Pedro G. Rocha
    Março 10, 2015 às 12:04 pm

    Imprensa. Jornalista difícil e competente. Viveu para a informação, desde RCP Angola na década de setenta, passando por RTP, RDP, RC, etc. e serviço público. Hoje, sentir a falta `desta informação` , é importante em termos comparativos.
    Adeus Manuel


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