09
Dez
12

O ESCÂNDALO DO PADRE QUE ABUSOU DE DEZENAS DE CRIANÇAS NO SEMINÁRIO DO FUNDÃO TRAZ – NOS À MEMÓRIA OS ACONTECIMENTOS EM BEJA

padreOs abusos sexuais de menores à guarda do seminário de Fundão perpetrados por um padre, vice-reitor da instituição, trazem-nos à memória a história de outras violentações que terão ocorrido no Seminário de Beja. Então como agora tudo permaneceu guardado no silêncio das vetustas paredes das instituições controladas pela igreja.

Membros da Igreja Católica voltam a estar implicados em suspeitas de abuso de menores. O seminário do Fundão,o casarão frio e cruel retratado no romance de Virgílio Ferreira «Manhã Submersa«  foi palco de um dos maiores escândalos sexuais envolvendo a Igreja Católica. O responsável pelo seminário,Luis Miguel Mendes, um padre de 37 anos, é o presumível autor de “vários crimes de abuso sexual de crianças e de menores dependentes sobre os quais detinha funções de educação e protecção”, refere a PJ em comunicado.

O assunto é o tema do dia na cidade do Fundão, com os habitantes a garantirem que foram apanhados de “surpresa” pela notícia.

O vice-reitor do Seminário Menor do Fundãoseminario foi detido pela PJ “em cumprimento de mandado de busca e detenção emitido pelas autoridades judiciárias competentes”.Foi ouvido durante a tarde de sexta-feira no Tribunal do Fundão e ficou sujeito a prisão domiciliário com pulseira electrónica, segundo fonte policial.

A Diocese da Guarda emitiu um comunicado, referindo que garante “total colaboração” à investigação que levou à detenção do sacerdote por suspeita de abuso de menores. Surpreendidos durante a noite nos quartos,os menores não tinham hipótese de escapar. Depois, o sacerdote fazia valer a sua autoridade pressionando s jovens a não revelarem os contactos sexuais. Não há para já um número exacto de vítimas, mas a PJ admite que possam chegar às dezenas. São de diferentes idades, uma vez que a instituição leciona do 5º ao 12º ano. No entanto, suspeita-se que os abusos tenham sido silenciados no interior do Seminário, tentando a Polícia perceber ( e apurar conivências) de como foi possível que os menores tenham sido violentados durante anos sem que ninguém se apercebesse. Outra preocupação das autoridades é também perceber há quanto tempo duravam os abusos, isto porque embora o padre suspeito exercesse as funções de vice-reitor fazia parte dos formadores da instituição desde 2003.

ABUSOS TAMBÉM TERÃO OCORRIDO NO SEMINÁRIO DE BEJA

Não é a primeira vez que uma instituição da Igreja surge envolvida em escândalos relacionados com abusos de menores. Ocrimedigoeu já havia aqui revelado ( ver arquivo) que, durante anos, o Seminário de Beja escondeu vícios privados e ostentou públicas virtudes. Senhores muito beatos da região estenderam a sua «caridade» à inocência e à miséria de meninos pobres que ficaram marcados para toda a vida. O manto protector das sotainas, ainda na altura da investigação – decorridos tantos anos das iniquidades -, foi cúmplice de silêncios imemoriais.

Majestoso e imponente, o edifício do Seminário de Beija erguia-se beijado pelo tórrido calor alentejano, junto à quietude pardacenta do jardim público, onde velhos e crianças pela mão descansavam e passeavam entre o arvoredo.

O latifúndio não foi, para os alentejanos, um mero sistema de desigualdade e injustiça na distribuição de propriedade a sul do Tejo. Foi mais que isso. Constituiu um punhal cravado na honra de cada homem e de cada mulher que, juntamente com a terra, eram propriedade de senhores poderosos. Não muitos decénios atrás, ao senhor da terra assistia uma espécie de direito ancestral a «tirar o cabaço» às raparigas. Para além da força de trabalho extenuada à jorna de sol a sol, a entrega tinha de ser total: a virgindade das moçoilas também havia de ser parte do inventário, da arrogância e da vaidade do agrário.

E importa falar desses tempos para que se perceba toda a lógica de silêncios e cumplicidades que medra, ainda hoje, em terra alentejana. Uma terra e um povo de grande religiosidade, ao contrário do que possa parecer pela redutora análise política de movimentos sociais e influências ideológicas. Ao mesmo tempo, uma sólida consciência anticlerical perpassa a mente da maior parte das gentes, fruto de uma memória histórica que cola o clero à sombra das benesses doa poderosos e à guarda conveniente e afagadora dos poderes públicos.

Em fim-de-semana tórrido de quase vinte anos atrás, Filipe (nome fictício) deixa as vetustas paredes do seminário para, com a alegria da sua puberdade inocente, ir passar o dia a casa de um benemérito, pessoa muito ligada à Igreja e à caridade, assim uma espécie de protector de órfãos e desvalidos… Na herdade, a poucos quilómetros de Beja, quem vai para a aldeia de S. Brissos, esperam-no iguarias e senhores simpáticos… Apesar de lhe tocarem “nas partes” e lhe darem beijos repenicados e insistentes, o miúdo nunca nessa altura percebeu ser ele – e não os pratos servidos no repasto – a iguaria.

«Só tomei consciência de tudo quando, já adolescente, me apercebi que o carinho e afecto dos adultos não deve ter expressões dessas nas crianças», disse-nos Filipe. Ainda hoje, largado o seminário «por inexistência de vocação», casado e pai de filhos, este homem tem dificuldade em lidar com os seus medos, com esse lado obscuro de um passado que lhe roubou a inocência. Nunca mais passou junto à herdade, que entretanto mudou de proprietários, e dificilmente nas suas idas a Beja consegue olhar, sem que uma lágrima lhe aflore o rosto, as paredes de uma sobriedade ostensiva em que se ergue o Seminário Diocesano de Nossa Senhora de Fátima (assim se chama com todas as letras, em rigor da verdade). É que, dentro dessas mesmas paredes, desses muros de silêncio cúmplice, foi também alvo da rapina libidinosa de quem usava «em vão o nome do Senhor» …

Na cidade comentava-se na altura – e, ao que sabemos, ainda hoje -, esse passado negro da instituição secular e recordam-se os silêncios dos vários poderes. E ainda se falava das actividades de um sacerdote, responsável por uma instituição de acolhimento de estudantes, que continuava – qual predador -, pesem embora os escândalos de pedofilia que, à época, assolavam a capital, a perseguir jovens e a seduzir meninos a troco de prendas, comprando a sua inocência e a sua pobreza. Todos sabiam, todos calavam, todos eram cúmplices voluntários ou involuntários. A começar pelas autoridades, a quem essas actividades não eram alheias, mas que cobarde e criminosamente continuavam a olhar para o lado.

Pedro (nome fictício) também conheceu a herdade e, como Filipe, saltitou a sua inocência no regaço dos senhores. Confrontado com factos, datas, locais e práticas que só quer esquecer, reagiu com um choro compulsivo e quase silencioso, ao mesmo tempo que seu corpo se via possuído de um tremor antigo feito de vergonha e de dor. Continua ligado às coisas da Igreja, não seguiu o sacerdócio porque, por altura da adolescência, a sexualidade despertou abrupta e vivificada – regeneradora mesmo – nos amores clandestinos de uma senhora mal casada. Separações consumadas – a dela com o marido, a dele com o passado -, partilhavam um pequeno apartamento na margem sul do Tejo, mesmo ali em frente ao elefante branco que foi a Lisnave. Pedro não fala, mas procura resgatar Cristo dessa ignomínia despudorada de sacerdotes que escondem velhos segredos pecaminosos na franja das sotainas…

O então – à época da nossa investigação – reitor do seminário de Beja, padre Manuel Rosário, disse-nos: “Há dez anos atrás encontrava-me no estrangeiro”. Curiosamente, ao contrário de parte substancial do povo da velha urbe alentejana, desconhecia “por completo o assunto”… E esta posição, ao mesmo tempo cautelosa e contraditória, ilustrou a mundividência da cidade e os silêncios que lhe subjazem. Em privado, longe de um comprometedor gravador ou de uma inconveniente máquina fotográfica, todos eram unânimes em ratificar histórias de abusos e vilanias. Mas calavam em público – numa cumplicidade negligente – o que era de seu foro privado, de conversas em família, ou em tertúlias de cafés da baixa.

Como agora aconteceu no Fundão, o silêncio imperou durante anos enquanto no interior das instituições a vilania imperava vitimando jovens para sempre dilacerados por esse ferrete de terem sido abusados pelos «homens que serviam Deus»


3 Responses to “O ESCÂNDALO DO PADRE QUE ABUSOU DE DEZENAS DE CRIANÇAS NO SEMINÁRIO DO FUNDÃO TRAZ – NOS À MEMÓRIA OS ACONTECIMENTOS EM BEJA”


  1. 1 RR
    Dezembro 19, 2012 às 12:00 am

    Poe-me em contacto com as pessoas de quem fala? Deixeí lhe o meu endereço de email. Obrigada.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: