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Set
12

QUEM TEM MEDO DA “IRA MUÇULMANA”?

A grande maioria dos protestos contra o filme “A Inocência dos Muçulmanos” foi pacífica, ao contrário do que foi propalado nos media. As violações das embaixadas estrangeiras foram quase todas organizadas ou impulsionadas por indivíduos do movimento salafista, um grupo radical islâmico que se preocupa mais em destruir os grupos islâmicos populares moderados

A capa de uma revista dos EUA (ver imagem) mostra a posição obtusa dos media de massas nas duas últimas semanas: o mundo muçulmano está a arder num sentimento de ira contra o ocidente por conta de um filme islamofóbico e hordas de manifestantes violentos pelas ruas ameaçam a civilização ocidental … Mas será este quadro verdadeiro? Cidadãos e os novos media estão respondendo, e o site Gawker fez uma sátira brilhante desta onda mostrando imagens alternativas à “ira muçulmana” (no Twitter, várias pessoas responderam à ‘hashtag’ MuslimRage (ira muçulmana), usada ao longo deste artigo):

7 COISAS QUE NÃO LHE CONTARAM SOBRE A “MUSLIMRAGE”

Como qualquer pessoa, a maioria dos muçulmanos acharam o vídeo islamofóbico de 13 minutos de má qualidade e ofensivo, e os protestos se espalharam rapidamente, tocando em feridas compreensíveis e duradouras sobre o neocolonialismo dos EUA e a política externa ocidental no Médio Oriente, assim como a sensibilidade religiosa no que diz respeito a representações do profeta Maomé. Mas frequentemente a cobertura dos media omite algumas informações importantes:

1. As estimativas iniciais mostram que a participação em protestos contra o filme representam de 0,001 a 0,007 por cento da população mundial de muçulmanos: 1.5 bilhão de pessoas — essa percentagem representa uma pequena fração do número de pessoas que marcharam pela democracia durante a Primavera Árabe.

2. A grande maioria dos protestos foi pacífica. As violações das embaixadas estrangeiras foram quase todas organizadas ou nutridas por indivíduos do movimento salafista, um grupo radical islâmico que se preocupa mais com destruir os grupos islâmicos populares moderados.

3. Oficiais líbios e americanos de alto escalão estão divididos sobre se o assassinato do embaixador dos EUA na Líbia foi planejado previamente para coincidir com o aniversário do 11 de setembro, e portanto não estaria relacionado com o filme.

4. Além dos ataques feitos pelos grupos militantes radicais na Líbia e Afeganistão, uma avaliação das notícias atuais feita no dia 20 de setembro sugeriu que os manifestantes mataram, ao todo, zero pessoas.

5. Quase todos os líderes mundiais, muçulmanos ou ocidentais, condenaram o filme, e quase todos eles condenaram qualquer tipo de violência que possa vir a acontecer enquanto resposta.

6. O papa visitou o Líbano no auge da tensão, e líderes do Hezbollah participaram do sermão papal, abstiveram-se de protestar sobre o filme até que a santidade deixasse o local, e clamaram por mais tolerância religiosa. Sim, isso aconteceu.

7. Após o ataque em Bengazi, cidadãos comuns foram às ruas da cidade e em Tripoli com cartazes, muitos deles escritos em inglês, com pedidos de desculpas e afirmando que a violência não os representava, nem sua religião.

Além dos pontos listados acima, há um grande número de notícias que foram ignoradas pelos media na semana passada para dar margem a capa da revista Newsweek, a #MuslimRage e a cobertura dos conflitos. Na Rússia, dezenas de milhares protestaram nas ruas de Moscou contra o presidente russo Vladimir Putin. Centenas de milhares de portugueses e espanhois marcharam em protestos contra austeridade; e mais de um milhão de catalães marcharam pela independência.

IRA MUÇULMANA OU ESTRATÉGIA SALAFISTA

O filme “A Inocência dos Muçulmanos” foi escolhido e distribuído com legendas por Salafistas da extrema-direita — seguidores radicais de um movimento islâmico apoiado há muito tempo pela Arábia Saudita. O filme era uma produção barata, desastre no YouTube até que o apresentador de TV egípcio salafista, Sheikh Khaled Abdullah (ver foto mais abaixo) começou a divulgá-lo para seus espectadores no dia 8 de setembro. A maioria dos muçulmanos insultados ignoraram o filme ou protestaram pacificamente, mas os salafistas, de posse de suas bandeiras pretas, lideravam os provocadores dos protestos mais agressivos que invadiram embaixadas. Os líderes do partido salafista egípcio participaram do protesto em Cairo que culminou na invasão da embaixada dos EUA.

Como a extrema-direita nos EUA ou na Europa, a estratégia salafista é arrastar a opinião pública para a direita, aproveitando-se de oportunidades para espalhar o ódio e demonizar os inimigos de sua ideologia. Essa abordagem lembra muito o apelo antimuçulmano do pastor americano Terry Jones (o primeiro a divulgar o filme no Ocidente) e outros extremistas nesse lado do mundo. Entretanto, nas duas sociedades os moderados ultrapassam (e muito!) em número os extremistas. Uma figura pública da Irmandade Muçulmana do Egito (o mais forte e popular oponente político dos salafistas no Egito) escreveu um artigo no New York Times dizendo: “Não responsabilizamos o governo americano ou seus cidadãos pelos atos daqueles que abusam das leis que protegem a liberdade de expressão”.

A BOA COBERTURA JORNALÍSTICA

Um solitário grupo de jornalistas e académicos introduziu-se no meio dos protestos com a intenção de entender a verdade sobre as forças por trás das manifestações. Entre eles, Hisham Matar, que descreve com afinco a tristeza na cidade de Benghazi após a morte do embaixador Steven, e Barnaby Phillips, que explora como os conservadores islâmicos manipularam o filme em prol de si mesmos. A antropóloca Sarah Kendzior alerta para que não se trate o mundo muçulmano como uma unidade homogênea. E o professor Stanley Fish aborda a seguinte questão: porque tantos muçulmanos são tão sensíveis a representações muito pouco lisonjeiras do Islão.

 


1 Response to “QUEM TEM MEDO DA “IRA MUÇULMANA”?”


  1. 1 Ruy Arriaga
    Setembro 29, 2012 às 4:58 pm

    Já era tempo de a Justiça funcionar. É preciso não esquercer que o Presidente do ACP já tinha lançado uma denúncia contra desconhecidos sobre as PPP das AEs. Agora segundo se sabe Medina Carreira deu-lhes nomes numa outra denúncia. Se assim for é natural que a Justiça tivesse que se mexer. Isso não significa que agora volvido mais de um ano da queda do Governo ainda pudessem existir quais provas concludentes esquecidas. Portanto suponho que será outro caso Freeport ou Face Oculta! A Lei é muito permissiva e os advogados sabem como dar a volta. Até hoje parece só terem havido 4 corruptos/criminosos condenados, sendo só dois foram presos e cumprem pena em casa!! Temos que esperar pelas tão desejadas reformas na JUstiças que a Ministra prometeu e que tardam em sair.
    O Sr. Bastonário afirmou até que em caso de flagrante delito não pudia ser julgado em 48h. Certamente como iriam viver os advogados não pudendo arrastar os processos nos tribunais anos a fio! E como é que poderia encontrar as necessárias testemhunas de conduta duvidosa para provar que o criminoso afinal era vítima? DIrão alguns, as prisões estão cheias …


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