02
Jul
12

OS «AZARES» DO DEPUTADO RICARDO RODRIGUES: DAS LIGAÇÕES PERIGOSAS, ÀS SUSPEITAS DE ABUSO SEXUAL E AO FURTO DE GRAVADORES A JORNALISTAS

Depois ter sido condenado na terça-feira ao pagamento de uma multa de 4 950 euros, que resulta de 110 dias de multa a 45 euros cada, Ricardo Rodrigues pediu suspensão das suas funções na direção do Grupo Parlamentar do Partido Socialista.
O caso remonta a abril de 2010, quando, durante uma entrevista no Parlamento (onde citou os seus «azares do passado), Ricardo Rodrigues se levantou e abandonou a sala onde se encontrava, levando consigo os gravadores dos jornalistas Fernando Esteves e Maria Henriques Espada, da revista “Sábado”, depois de estes o terem interrogado sobre o seu alegado envolvimento num escândalo de pedofilia nos Açores.A sentença foi proferida terça-feira nos Juízos Criminais de Lisboa.

Numa nota de imprensa, o deputado socialista eleito pelos Açores renuncia também às funções de representação da Assembleia da República no Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários e ao lugar de suplente no Conselho Superior de Informações.

A renúncia às funções políticas surge após o tribunal ter dado como provados os factos da acusação que lhe imputavam um crime de atentado à liberdade de imprensa e um crime de atentado à liberdade de informação, considerando que o arguido actuou “de forma irrefletida” quando se apoderou dos gravadores.

«O Crimedigoeu» pode revelar os factos que tanto apoquentaram o deputado socialista durante a entrevista que deu à «Sábado». Foi por uma unha negra que se livrou de ser chamuscado no escândalo de pedofilia em S. Miguel. Ricardo Rodrigues era, à altura do escândalo, secretário Regional da Agricultura e Pescas dos Açores – de que se demitiu por «uma questão de honra», o mesmo que não há muito tempo se abotoou aos gravadores de jornalistas, é bem conhecido da Polícia Judiciária. O seu nome está ligado a uma mega burla que teve como alvo a agência da Caixa Geral de depósitos (CGD) de Vila Franca do Campo, em S. Miguel, Açores.

«Viciação de cartas de crédito e branqueamento de capitais» eram as mais graves acusações imputadas a Ricardo Rodrigues. Pelo meio, um relatório da PJ refere a sua ligação a Débora Maria Cabral Raposo, classificada oficialmente como «burlona e traficante de estupefacientes».Rodrigues foi advogado e sócio desta personagem e com ela frequentou o chique das suites do Hotel Sheraton de lisboa, do Savoy do Funchal e outros hotéis de luxo.

A investigação da 2ª Brigada da PJ de Ponta Delgada, que remonta a 1997 [inquérito nº 433/97.8JAPDL], desmonta um bem orquestrado estratagema que tem como figuras cimeiras Duarte Borges – primo do presidente do Governo regional, e irmão de um juiz também investigado pela PJ -, gerente da CGD e referenciado por uma arguida como sendo “tarado por menores”, bem como a já referida Débora, apontada como sendo o «cérebro da operação».

O gerente, Débora –  entretanto capturada e tendo já cumprido pena – e associados, nomeadamente um empresário da construção civil e, na altura, presidente do Desportivo de Vila Franca do Campo, engendraram um meio de adquirir empréstimos fraudulentos, utilizando um expediente singular: como o gerente da instituição bancária tinha autonomia para conceder empréstimos até ao valor de 2.500 contos com a finalidade exclusiva de «adquirir ovelhas para recria», angariavam mutuários, muitas vezes a troco de algumas dezenas de contos, que por sua vez tratavam de angariar fiadores, normalmente pessoas da sua família ou relações de amizade. O expediente permitiu à associação criminosa sacar empréstimos num valor superior a 1 milhão e quinhentos mil contos, posteriormente utilizados em operações financeiras duvidosas.

Num dos braços do engenhoso esquema estava o Colégio Internacional, sediado no Funchal, Madeira, do qual eram sócios Débora Raposo, Ricardo Rodrigues e a obscura sociedade off shore «Hartland Holdings Limited», com sede numa caixa postal da Ilha de Man, Reino Unido. A páginas 1997 do já citado inquérito, os investigadores salientam: «Foi referido pelo arguido detido, Duarte Borges, na acareação (…) que tem perfeita consciência que enviou vários milhares de contos (da CGD, provenientes dos empréstimos agrícolas) à Débora Raposo/colaboradores, tendo indicado, entre outros, o arguido Ricardo Rodrigues. Mais, referiu que a Débora e os colaboradores, onde se encontrava o arguido Ricardo Rodrigues, negociavam Cartas de Crédito, com dinheiro dos empréstimos fraudulentos em vários países».

As dúvidas da PJ foram-se paulatinamente dissipando no decurso da investigação. O inspector relator do inquérito manifesta a sua perplexidade, no que respeita à conduta do dirigente socialista: «Outro aspecto que me parece importante registar, porque denota alguma estranheza é a confiança/falta de experiência/negligência (??) que este arguido mostrou para com a Débora, enquanto seu advogado (??), senão vejamos: o arguido, na qualidade de advogado desta, nunca apresentou para os autos procuração a constituí-lo, como também não chegou a informar esta Polícia (no sentido desta dissipar as dúvidas que a acolhem) se chegou a efectuar algum seguro de responsabilidade civil profissional, pois estava a acompanhar/aconselhar juridicamente negócios de vários milhões de contos, nomeadamente Cartas de Crédito».

Mais adiante pode ler-se: «No que concerne à aplicação destes dinheiros de proveniência fraudulenta, esta ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA [o destaque não é nosso] empregou-os não só em Portugal (nesta ilha, no Funchal e Lisboa), mas também fora dele, em operações financeiras no mercado internacional (off shores – Paraísos Fiscais) e na aquisição de Cartas de Crédito, de carácter muito duvidoso, sobre instituições bancárias russas (!!!)».

Miguel Freitas, um dos inquiridos no âmbito desta mega burla, esclarece a PJ de  «que a organização ou empresa (propriedade da Débora e do Ricardo Rodrigues), se destinava a negócios internacionais, nomeadamente a compra de títulos bancários em bolsas internacionais», referindo ainda que assistiu ao «planeamento das viagens de negócios à Argentina e ao Brasil», por parte da Débora e de Rodrigues.

Manifesta-se francamente estranho que uma suposta organização de ensino tenha os seus sócios em vaivém constante por várias partidas do mundo, nomeadamente há registos de viagens de avião efectuadas em «Classe Navigator»: Ponta Delgada/Lisboa, Funchal/Reino Unido, Suécia/Rússia, Ilha de Man/Brasil, Argentina/EUA, etc. E a hospedagem, claro, era sempre nos mais luxuosos hotéis.

A investigação vai ao ponto de indicar a alegada participação de um magistrado, familiar de um dos arguidos na tramóia, nomeadamente no que respeita às suas ligações a uma das componentes internacionais do negócio – um tal Bonaffini: «No presente inquérito existem igualmente declarações que, na opinião desta polícia, são de grande gravidade, envolvendo o meretíssimo Juiz (…). Essas declarações fazem alusão a uma eventual participação de Bonaffini em negócios de Droga e Branqueamento que, eventualmente, o Juiz terá ilibado».

Ainda no que respeita a Ricardo Rodrigues, o relatório da PJ não podia ser mais explícito ao afirmar que «enquanto estiveram no Funchal, Débora Raposo e Ricardo Rodrigues deixaram um rasto de ‘calotes’ em Agências de Viagens».

Pesem embora os pareceres da PJ, o agora cabeça de lista socialista pelos Açores nunca se viria a sentar no banco dos arguidos, apesar de constituído como tal na fase de investigação. Rodrigues acabou por ir a tribunal na qualidade de testemunha. Os «indícios e elementos probatórios fortes, nunca foram assim entendidos pelo Ministério Público. Vá-se lá saber porquê», confidenciou-nos na altura uma fonte policial. Curiosamente, um dos suspeitos de abuso sexual de crianças no âmbito da investigação da rede de pedofilia do Farfalha, é também magistrado e, na altura da investigação às actividades de Débora e Ricardo Rodrigues, desempenhava um alto cargo no Ministério Público em Ponta Delgada…

Procurador suspeito de abuso sexual é louvado e promovido

No mínimo, o que se poderá dizer é que a investigação sobre o escândalo de pedofilia nos Açores – vulgo, «Caso da Garagem do Farfalha» – esteve inquinada, apesar de, em Lisboa, os mesmos escribas de sempre tecerem loas à eficácia e rapidez das decisões. Na altura, corria o mês de Dezembro de 2003, a ideia com que ficamos foi a de que a PJ estava atada de pés e mãos e de que tudo se ensaiava, como historicamente sempre aconteceu na região autónoma, para que os poderosos saíssem incólumes do «braseiro». Assim veio a confirmar-se!

«A intenção é abafar o caso, crucificar o Farfalha para controlar os efeitos do escândalo»… Estas palavras de um advogado de Ponta Delgada, expressavam bem o sentimento generalizado vivido na cidade, sendo premonitórias do desfecho do processo.

Em causa estava um procurador suspeito de abuso sexual de menores, uma situação que era há muito conhecida na ilha de S. Miguel mas sempre abafada pelas autoridades. Para cúmulo da hipocrisia, do faz-de-conta e dos criminosos encobrimentos dos poderosos, o procurador em questão foi, logo a seguir à eclosão do escândalo, promovido a um novo cargo que o haveria de levar para fora dos Açores – neste caso, o Tribunal de Contas da Região Autónoma da Madeira -, a recato de alguns amargos de boca e do dedo acusatório da urbe. Os seus pares da beca negra até tiveram o despudor de florear o novo cargo, com rasgados elogios públicos à conduta profissional da criatura.

Nojo é, no mínimo, o que a mais sã sociedade micaelense sentiu por esta novela provinciana. O advogado por nós já citado, fez um vibrante apelo: «a investigação deveria ser dirigida por um procurador e investigadores vindos do continente». Percebe-se a intenção. Os da terra eram facilmente pressionáveis  numa sociedade que, na altura, foi caracterizada por um jovem jornalista como sendo «fechada, preconceituosa, moralista, egoísta e materialista».

.A propósito dos media locais, foi curioso verificarmos que, em matéria de pedofilia nos Açores, só existia um culpado: o Farfalha. Assim foi, e muito conveniente se apresentou para reconforto da má consciência de políticos e outros passarões que navegavam nas águas do poder, dos interesses, da moral conveniente e do faz-de-conta. A liberdade de informação é um mito, os jornalistas açorianos sabem – de amarga experiência – que pisar a fronteira mental previamente imposta era um risco que não podiam correr. Porque têm as suas vidas, a sua família, o seu espaço vivencial – e a ilha está rodeada de mar, com uma improvável possibilidade de escape estratégico…

Os poderosos que dominam a vida açoriana construíram o seu poder numa base de medo e coacção tácita. É uma corja organizada transversalmente, suprapartidária, mas que, por razões óbvias atravessa o espectro partidário do PS e do PSD – os partidos do alterne nas cadeiras do poder. A lógica dos interesses e compadrios inquinou a sociedade açoriana, onde o «grande centrão» domina a vida política, distribui benesses e protege os seus em momentos de vulnerabilidade.

Voltando ainda a Ricardo Rodrigues e à manchete de jornal que o pôs a descoberto, percebe-se perfeitamente que o cabeça de lista socialista só se safou de ser pronunciado no processo da mega burla que envolveu a Caixa Geral de Depósitos de Vila Franca do Campo, por alegada intervenção de amigos poderosos. Na altura, a «justiça» fez-se crucificando o gerente da instituição, Duarte Borges, o «culpado conveniente» para baralhar o jogo e pôr a salvo Rodrigues. «Fizeram uma pulhice ao Duarte. Ele foi enganado pelos verdadeiros vigaristas e não ganhou um tostão com isso», assim se referia ao processo um bancário de Ponta Delgada que bem conhece o ex-gerente. Ao abatê-lo, a máfia dos interesses intentava também outro objectivo: atingir o irmão juiz do ex-gerente, pessoa não susceptível a pressões ou qualquer tipo de malversações.

O pantanoso «centrão» da vida pública de Ponta Delgada amarrou a investigação policial, amordaçou a comunicação social local, paulatinamente foi calando vítimas e intimidando vozes incómodas. A vidinha desafogada dos poderosos seguiu o seu curso depois do grande susto…A miséria material, física e moral está instalada há muitos anos e, afinal, até parece ser um «hábito cultural» – alguns pais iniciaram as filhas sexualmente. O importante é que todos continuassem – e continuem – a fazer de conta que estava tudo bem, condição fundamental para que «os senhores» pudessem continuar a chafurdar, a enriquecer mais e mais e a dominar. Tudo, claro, em nome do Estado de Direito e da democracia… Compreende-se do que tinha medo Ricardo Rodrigues ao furtar os gravadores aos dois jornalistas de Lisboa que não tiveram medo em interrogá-lo sobre estas questões incómodas…o que já não se entende é o facto de Rodrigues continuar comodamente sentado na bancada de deputado da Nação, com estes «azares» (como o próprio referiu aos repórteres da «Sábado») a assombrarem-lhe o passado…

 


0 Responses to “OS «AZARES» DO DEPUTADO RICARDO RODRIGUES: DAS LIGAÇÕES PERIGOSAS, ÀS SUSPEITAS DE ABUSO SEXUAL E AO FURTO DE GRAVADORES A JORNALISTAS”



  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: