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Maio
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O CASO DO NAVIO ANGOCHE: UM MISTÉRIO INDECIFRÁVEL 41 ANOS DEPOIS; RELATÓRIO DESAPARECEU DA SEDE DA PIDE

Quatro anos depois  do golpe militar de 25 de Abril , desaparecera da sede da PIDE/DGS o relatório secreto sobre um dos mais intrigantes acontecimentos da nossa história mais recente: o ataque ao navio «Angoche» em pleno mar alto, quando rumava para Moçambique carregado de material para a FAP. Mas alguns elementos importantes foram revelados no livro do jornalista Metzner Leone ( já falecido) e por um operacional da PIDE, Óscar Cardoso. Recuperamos esses documentos.

Fez 41 anos no passado dia 23 de Abril que aconteceu um dos mistérios mais intrigantes da nossa mais recente história: o ataque ao navio «Angoche» levado a cabo na costa africana, quando ia em viagem para o Norte, carregado com material militar para a Força Aérea que combatia em África. Os 22 tripulantes foram levados para a Tanzânia e, tudo indica, tenham sido assassinados em Nachingwea, uma base da Frelimo. Supõe-se que o assalto tenha sido feito por meios navais soviéticos, talvez com o apoio de um submarino e com base em informações prestadas pelo Partido Comunista Português ( segundo a tese de homens ligados à PIDE, com o veremos mais adiante).Foram encontradas manchas de sangue no navio, o que prova que foi usada violência contra os tripulantes.
Só 3 dias depois, a 26 de Abril de 1971, o navio foi abordado pelas autoridades coloniais portuguesas, pelo que houve quem se interrogasse em Moçambique se não teria sido tempo demais para dar pela falta de um navio daquele tamanho e com uma carga daquela natureza.
Usou-se o clássico raciocínio do “Motivo, Meios e Oportunidade” para tentar perceber o que se tinha passado:
– Motivo e Oportunidade: a Frelimo e a União Soviética, porque o “Angoche” transportava material de guerra;
– Meios: apenas a União Soviética, porque a Frelimo não tinha meios navais para um assalto em alto-mar.
Por motivos óbvios estratégicos e porque um acto de pirataria contra um navio mercante civil não honra particularmente quem o pratica, a URSS nunca falou no assunto.
Quatro anos depois, com o golpe militar de 25 de Abril em Lisboa, desapareceu o relatório secreto sobre o assunto.
Assim se passaram 41 anos sem que a opinião pública tivesse tido o direito de saber o que se passou.
Haverá pessoas daquele tempo que sabem o que aconteceu ou que tiveram acesso ao relatório. Será que familiares da tripulação, alguns residentes na Ericeira,estarão dispostos a quebrar o  silêncio!

O único que o fez foi o jornalista Metzner Leone, já falecido, que escreveu um livro ( editado pela «Intervenção» que ainda pode ser encontrado nos alfarrabistas) onde apontou o dedo para a conivência de elementos da esquerda revolucionária portuguesa e de oficiais das nossas Forças Armadas que se opunham ao regime deposto no 25 de Abril.

Tese que foi corroborada pelo antigo inspetor da PIDE, Óscar Cardoso, criador do grupo Flechas em África e que depois do 25 de Abril foi um  dos mais activos agentes da secreta sul africana.Vejamos o que disse sobre o caso Angoche:

« Operávamos muito em África, através de informadores, sobretudo nos países vizinhos de Angola, Moçambique e Guiné. Por exemplo, havia informadores na Tanzânia em ligação a Oscar Kambona, o chefe da oposição a Julius Nyerere. Mas o controlo era feito através de Lisboa, pela secção central na António Maria Cardoso, chefiada por Álvaro Pereira de Carvalho. Tínhamos de facto bons informadores em África, onde os nossos serviços faziam um trabalho sobretudo de intelligence, em colaboração estreita com os militares.
Foi precisamente através da nossa rede na Tanzânia que soubemos o que se tinha passado com o navio Angoche. O navio Angoche levava material para a nossa Força Aérea, material sofisticado, essencialmente material explosivo, bombas para os aviões, etc., e creio que ia para Porto Amélia. Soubemos que o Angoche foi abordado em 23 de Abril de 1971 por um submarino da União Soviética e que os seus tripulantes foram levados para a Tanzânia, para a base central da Frelimo, Nachingwea. Foi uma operação executada por soviéticos, o que nos foi possível confirmar pelas análises que fizemos dos vestígios encontrados no barco. A primeira pessoa que fez a investigação a bordo do Angoche foi o inspector Casimiro Monteiro. Verificou que as armas não estavam lá. A tripulação foi levada para Nachingwea e depois, penso eu, terá sido aniquilada. Penso que iam no Angoche à volta de vinte e três pessoas. Mais de metade eram africanos, de Moçambique, e os outros europeus. O navio não era de passageiros mas levava um passageiro a bordo, a quem se deu uma boleia, o que era estranho. Houve uma outra coisa curiosa: a mudança, à última hora, do radiotelegrafista. O radiotelegrafista que era para ir resolveu não ir. Pode ter sido uma mera coincidência, mas é curioso que assim tenha sido. Na nossa opinião, tratou-se de uma operação soviética, feita em colaboração com o Partido Comunista Português. Fala-se que houve oficiais da Marinha, hoje oficiais generais, que estariam envolvidos nisso. Houve também o estranho caso de uma rapariga que foi “suicidada” na cidade da Beira e que estava ligada aos meios esquerdistas da Marinha portuguesa. Esta versão dos factos constou dos nossos relatórios na altura. Tínhamos um relatório secreto sobre o Angoche que desapareceu da sede da DGS, na Rua António Maria Cardoso, depois do 25 de Abril. Foi um dos processos que desapareceram. O caso estava a ser investigado».
Bruno Oliveira Santos, Histórias secretas da PIDE/DGS (p. 401-402)

NOTA:
A última notícia relacionada com o navio “Angoche” foi prestada por Fernando Taborda, o último administrador português de Quionga:
“Saiba o povo português que, em Março de 1974, foi descoberta, na foz do Rovuma, uma baleeira do navio “Angoche”, com insígnias começadas por NA confirmada pelo cabo de mar de Palma e que, sobre ela, nunca me foi dada resposta à circular que mandei para a Capitania de Porto Amélia.”
In Quionga, meu amor


2 Responses to “O CASO DO NAVIO ANGOCHE: UM MISTÉRIO INDECIFRÁVEL 41 ANOS DEPOIS; RELATÓRIO DESAPARECEU DA SEDE DA PIDE”


  1. 1 Angoche
    Maio 25, 2012 às 5:23 pm

    Lembro-me perfeitamente de ter contemplado os restos do Angoche na baía de Maputo. Quando foi “rebocado” até lá, após o assalto, eu e o meu padrinho, munidos de binóculos passámos muitas tardes a “espreitar” o convés, muito visitado nos primeiros dias após a chegada, depois, esquecido. Lá ficou, abandonado na baía, como um momumento ao “silencio”. Angoche…

    • 2 manuel dos cavalos
      Janeiro 23, 2014 às 4:39 pm

      Havia um inquerito a decorrer ao tempo de Sá Carneiro, uma empregada de uma das “viuvas” dos tripulantes, teria encontrado um recorte de jornal chinês (que embrulhava loiça vinda da china) com fotos dos tripulantes feitos prisioneiros por tripulantes de um submarino chinês. O governo terá aberto inquerito porque não se teriam apercebido dessa noticia as autoridades portuguesas de Macau, mais um inquerito que morreu na praia….


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