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Maio
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CAMARATE- DENÚNCIAS DE «ARREPENDIDO» DESCURADAS PELA PJ POUCOS MESES ANTES DO PROCESSO PRESCREVER

Se mais dúvidas subsistissem sobre a estranha inércia que motivou a PJ a não investigar a morte de Sá Carneiro este episódio tiraria todas as dúvidas: em Maio de 1995, Fernando Farinha Simões, que agora surgiu  a confessar a autoria do atentado, denunciou à V Comissão de Inquérito da Assembleia da República ter visto José Esteves a fabricar na sua casa, Damaia, um engenho explosivo, a poucos dias de 4 de Dezembro de 1980, a data fatídica para Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. Numa acareação com o próprio Esteves, que teve lugar perante os deputados, Farinha Simões lembrou as palavras que o agora seu grande amigalhaço – foi a ele quem forneceu a gravação da sua confissão no estabelecimento prisional de Vale de Judeus onde cumpre actualmente pena – proferiu na altura: «Vai ser uma bomba que em termos políticos vai dar que falar».

Estávamos a poucos mais de sete meses do processo Camarate prescrever. E que fez a PJ e o MP para incriminar os dois indivíduos suspeitos? Nada. Ganham assim contornos verídicos as declarações de Farinha Simões na sua confissão, ao sublinhar as grandes «protecções» que os implicados no atentado gozavam no seio da PJ e dos orgãos judiciais, apontando o nome do Major Lencastre Bernardo, ex homem forte da corporação e da PJ militar, com relações privilegiadas ao poder político – era o responsável pelas relações com as autarquias no Palácio de Belém na altura em que Ramalho Eanes foi presidente da República.

Mais: curiosamente, foi também na zona da Damaia/Amadora que uma testemunha referenciada no IV Relatório de Inquérito Parlamentar a Camarate, ouviu, numa praceta, uma conversa suspeita entre dois indivíduos: «Cai, e depois de cá estar em baixo não tem conserto e as culpas vão para a AD». Isto passou-se na noite de 25 para 26 de Novembro de 1980. Dias mais tarde, essa testemunha deu a conhecer o seu segredo ao Ministério da Administração Interna e ao gabinete do primeiro-ministro, sublinhando que algo estava a ser planeado contra o Governo. A PJ descurou essa informação. E no relatório  da IV Comissão, esse homem foi apontado como uma das testemunhas que terão sido alvo de tentativas de aliciamento por parte de agentes da PJ que procederam à «rigorosa investigação» a Camarate. E o «convite»  que então lhe foi dirigido  era para dizer que tinha sonhado e que nada  do que contara correspondia à verdade.

Foi também a escassos meses de o processo prescrever, que Esteves, numa entrevista ao semanário «o Crime» ( já o tinha feito numa outra entrevista a «o Diabo») levantou as suspeitas do envolvimento de militares para abater Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, dada a intransigência de ambos em furar o embargo de armas ao Irão e Iraque.

Tudo isso foi descurado pela PJ e pelos poderes judiciais, no caso, o MP. A imagem de Esteves e Fernando Farinha Simões não era aparentemente credível…ou havia interesse para que passassem como tal. Esteves abrira um consultório de bruxaria, surgiu nos jornais a fazer magia junto à casa de alguns famosos, fora internado no Júlio de Matos depois de um incêndio no seu consultório; Fernando Farinha Simões estava na altura detido por tráfico de droga, mais tarde, foi acusado do sequestro da jornalista Margarida Marante ( e cumpre actualmente pena por causa desse crime) e tudo não foi mais do que poeira que ambos levantaram. Arquive-se foi a sentença salomónica de um caso que mancha, de forma inapelável, a nossa justiça e a PJ.E está em causa a morte (ou assassínio) de um primeiro-ministro e do seu ministro da Defesa…

PS- Ficámos agora a saber, através do texto publicado neste blogue pelo jornalista Nuno Rebocho ( antigo responsável pelo gabinete de informação e contra -informação da AD na candidatura presidencial do general Soares Carneiro) que, logo após a morte de Sá Carneiro, foi Ângelo Correia quem propôs que Pinto Balsemão lhe sucedesse no cargo. O que não deixa de ser curioso: Ângelo Correia, antigo ministro da Administração Interna, deve ser o homem que mais segredos guarda e sabe sobre o regime e que mais influência tem sobre políticos. É mesmo o líder espiritualista de Passos Coelho… o seu grande mentor e impulsionador na sombra.

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2 Responses to “CAMARATE- DENÚNCIAS DE «ARREPENDIDO» DESCURADAS PELA PJ POUCOS MESES ANTES DO PROCESSO PRESCREVER”


  1. Maio 10, 2012 às 3:02 pm

    Lucas Carré:

    Simplesmente “de bradar aos céus”!
    Mas… alguém nos ouve? Alguém nos escuta?

    Hoje não consigo comentar melhor do que desta forma:

    Claustrofobia

    Se eu fosse lobo… uivava;
    se fosse cão gania, ladrava…
    E uivava também.

    Limito-me a gritar em silêncio,
    a deixar que as lágrimas caiam
    em catadupa
    sem soluços
    sem que eu as seque…

    E elas
    (pobres lágrimas amargas!)
    caem e caem
    como que num longo e sobejamente conhecido gemido
    e abafado grito
    tão profundo
    tão magoado
    quase asfixiado…
    a quem roubaram o ser,
    a voz
    e a liberdade!

    Se eu fosse lobo…
    Se eu fosse cão…
    A natureza em mim cumpria-se.
    Assim não passo de um ser abafado
    na clausura
    que para mim construí.

    Celeste Santos
    28 Nov. 2011

    Um abraço

    C.


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