03
Maio
12

CASO CAMARATE: TESTEMUNHOS COMPLEMENTARES DE UM AUSENTE – coisas que nunca foram contadas

Por Nuno Ferreira Rebocho

Adjunto do VI, VII e VIII Governos Constitucionais no Ministério da Habitação, Obras Públicas e Transportes (engº. Viana Baptista) e elemento das campanhas eleitorais da Aliança Democrática (gabinetes de Informação e Contra-informação)

 Surpreendido (e chocado) fiquei com o sensacionalista depoimento-revelação (ainda que tardia) de Fernando Farinha Simões, o qual me trouxe à memória, e acho meu dever narrar, muitos dos factos que ocorreram, no tempo e posteriormente, tanto na campanha da Aliança Democrática – de que me orgulho de ter feito parte -, tanto como adjunto do então ministro das Obras Públicas, Habitação e Transportes, engº Viana Baptista. Fui, certamente, um dos últimos passageiros que devia ter viajado no funesto Cessna, caído em Camarate, e só não o fiz porque, tendo participado no comício de Faro, em apoio do general Soares Carneiro (na célebre “noite dos ovnis”, que foram observados em Portugal e eu, nervosamente, avistei em plena Serra do Caldeirão), o dispensei quando me encontrei, ao lado do dr. Mário David, com o também falecido piloto Albuquerque, que estava no aeroporto da capital algarvia, diante de várias cervejas já bebidas. Perante a sua confissão de que o avião tivera diversos problemas para levantar voo em Lisboa, o que o atrasara imenso, resolvi disponibilizar a minha viagem nele e trocá-la pela mais segura deslocação de automóvel, com os “seguranças”. E, apesar de termos partido de Faro, à mesma hora, chegámos quase à mesma altura à sede da candidatura, na Avenida da República, em Lisboa, tais e muitos foram os problemas que esse avião teve para levantar de Faro.

Quero com isto afirmar – o que não é agora de algum modo desmentível – que esse Cessna, posto à disposição por um privado (e que serviu tanto à campanha do general Soares Carneiro, como à campanha do general Ramalho Eanes), andava reconhecidamente com problemas vários, “preso por arames”, como se sói dizer. E que Albuquerque não seria a propalada “águia” que se quis fazer crer e como é típico de pilotos civis oriundos das ex-colónias. De resto, os testemunhos de colegas, que se deslocaram, no dia seguinte, ao comício do general Soares Carneiro no Porto, são disso prova.

Por isso nunca duvidei do relatório policial do propalado “acidente” de Camarate nem do relatório das autópsias, ainda que eles pudessem ser acusados de superficiais e apressados. É que havia neles muita matéria de facto que os fundamentava. E não se encontraram evidentes vestígios de bomba, nem na carcaça devorada pelo fogo do referido Cessna, nem nos cadáveres dos falecidos. O roubo de gasolina – que provadamente houve no aeroporto de Lisboa – poderia justificar muito do que aconteceu nesse fatídico último voo de Francisco Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa, suas esposas, chefe de gabinete de Sá Carneiro e tripulantes.

Mas este relato-confissão de Francisco Farinha Simões tudo põe em causa e não há como fugir às evidências relatadas. São factos graves, mas são factos. Recordo-me perfeitamente que fui eu próprio quem transmitiu a notícia do “desastre” ao general Soares Carneiro (encontrávamo-nos em Setúbal e preparámo-nos para jantar: olhei para o exterior do restaurante em que estávamos – vi então o Nuno Gonçalves, acompanhado de um outro elemento, suponho que era o António Tânger, aos murros ao capot de um automóvel. Acorri em seu socorro, na suposição de que se tratava de mais uma provocação em que o dia de campanha fora fértil. Não o era; lavado em lágrimas, o Nuno relatou-me o que acabara de saber pela rádio – o avião caíra, o Sá Carneiro morrera. Foi esta a primeira notícia que nos chegou. Voltei para dentro, comuniquei ao general: “com estas coisas não se brinca”, foi a resposta dele. Logo depois chamaram o dr. Carlos Macedo ao telefone – ele confirmou aquilo de que eu servira de indesejada Cassandra).

Ficámos desajeitados. O que fazer? As informações funcionaram: primeiro, chamados para nos deslocarmos a Lisboa, à residência oficial do Primeiro-Ministro, transitoriamente ocupada pelo prof. Freitas do Amaral (na altura, vice Primeiro-Ministro), para uma reunião de emergência, logo depois do comício que deveríamos fazer na praça do Bocage, em Setúbal; um telefonema de Helena Roseta, para que não começássemos o comício sem ela chegar. Estava já a delinear-se aquilo a que chamámos de “viúvas de Sá Carneiro”: Helena Roseta, deputada do PSD por Setúbal, estava abertamente contra a candidatura de Soares Carneiro; fora por Francisco Sá Carneiro acusada de “traição” na reunião que, nessa tarde, horas antes do fatídico desastre, houvera no hotel Penta, em Lisboa, e na qual participei. Ele deixara claramente o aviso, endossado à Roseta e Francisco Lucas Pires (e extensivo a Aníbal Cavaco Silva, que – sabia-se – iria ser afastado da governação, quando o Executivo da AD fosse reestruturado em período pós-eleitoral. Cavaco fora, reconhecidamente, um erro de casting): “ajustamos contas depois das eleições”. Aqueles que tinham sido contra a estratégia de Sá Carneiro seriam agora, oportunistamente e desavergonhadamente, “sá-carneiristas” a outrance. O “teatro” de Helena Roseta iria começar: ausentara-se no trabalho, segundo Sá Carneiro traíra, mas agora mostrava ao público as suas cínicas lágrimas veneradoras. E nós teríamos que suportar-lhe o golpe. Eu recusei-me a isso. Logo em Setúbal virei-lhe ostensivamente as costas quando ela se me dirigiu: “não falo a traidores”, respondi-lhe.

O comício de Setúbal, às escuras, sob luto pesado, em lágrimas, sem discursos, foi feito por descargo de consciência: queríamos acabar com aquilo e rumar a Lisboa o mais depressa possível. Foi o que fizemos, passando a ponte 25 de Abril, acompanhados por batedores, a mais de cem à hora. De imediato, seguimos para S. Bento: ali, ao pé de Carlos Amorim (como e porquê estava lá? nunca vim a saber), recebi ordens claras do Ângelo Correia – que seguisse imediatamente para a sede de candidatura e passasse a mensagem: fora um acidente o que houvera com o avião, que as pessoas deviam concentrar-se no mosteiro dos Jerónimos, para onde seguiriam de imediato os corpos. Começava a funcionar a máquina infernal: havia que tentar, oportunamente, aproveitar o momento; e dever-se-ia contrariar a tendência para descobrir qualquer dedo (atentado) nos acontecimentos e desfazer o que alguns queriam: a triste desforra. A estratégia era evidente: correr contra o tempo, desarmar. Não tinha sido possível fazer qualquer autópsia: eu estava disso consciente. E da acção informativa pretendida me ocupei durante toda a noite.

Estas horas foram preciosas para desfazer vestígios, caso os houvesse, que apontassem na direcção de atentado. O resto passar-me-ia pelas mãos no gabinete de Viana Baptista: foi estabelecido um prazo para se divulgar os resultados das autópsias. Todavia, eu tinha que cumprir as indicações dadas por Ângelo Correia e pelo estado-maior da campanha da AD e neutralizar as fortes ameaças de uma guerra civil que os mais esquentados preferiam. Nessas inquietações, deveria eu passar para segundo plano outras instruções que entretanto recebera, na véspera, via Manuel Figueira (então Director Geral da Comunicação Social e responsável pela contra-informação da campanha, a cujo gabinete eu também pertencia), para estar atento a um comunicado (ou carta) que surgiria, assinado por Mário Soares, atacando a campanha de Ramalho Eanes (o que seria uma maneira dele, indirectamente, dar indicação de voto, já que, directamente, não o devia fazer. Tal fora combinado a alto nível, mas disto nunca mais ninguém se lembrou. Hoje, interrogo-me até que ponto isto não seria álibi do próprio Mário Soares que, pelos vistos, estaria dentro da conspiração de Frank Carlucci…).

Acordado ficou que o relato das autópsias, a cargo insuspeito dr. Sombreireiro, seria divulgado ao mesmo tempo que o relatório judicial, este apresentado pelo ministro da Justiça, dr. Meneres Pimentel, de quem a então minha mulher, Dúlia Maia, era adjunta para a Reforma Administrativa. Só que Meneres Pimentel, sem disso nos dar notícia prévia, “roeu a corda”e deixou esse relatório na gaveta. Nunca explicou por que o fez e deixou-nos sozinhos, completamente expostos à campanha que imediatamente começou e da qual é de crer que Meneres recebera qualquer pré-aviso. Soube, mais tarde, de coisas que, entretanto, ocorreram nos bastidores e agora são muito explicativas da campanha, mas que sobre as quais, por envolverem terceiros e por eu delas não ter sido testemunha directa, ainda devo manter no silêncio: por exemplo, como e porquê foi desencadeada essa campanha (pró-tese atentado) por Augusto Cid, familiar do próprio Viana Baptista, e quais as razões por que ela estava inquinada de forte suspeita.

Importa saber que o relatório das autópsias foi por mim mesmo revelado, em primeira mão e no meu gabinete (na Praça do Comércio, em Lisboa), a José Esteves Pinto, director adjunto do semanário “O Diabo”. Hoje, não tenho dúvidas de que José Esteves Pinto, até pelo modo como ele agiu, já estaria dentro da campanha da tese “atentadista” que foi de imediato lançada, com a sua conivência – estaria ao par de possíveis conversas de Sombreireiro e de Augusto Cid com Viana Baptista. O célebre primeiro relatório de autópsia seria o espoletar de toda a campanha, que nos apanhou completamente de surpresa e que permitiu o voo de um Cessna, levantado de Tires e pilotado por António Penaguião (ele próprio apontado por Fernando Farinha Simões pelo menos como cúmplice do atentado), no qual iam Augusto Cid e Nuno Rogeiro – quis-se simular o voo de Camarate e “provar” que o roubo de gasolina não causaria a queda do avião: só que tal simulação não “provava” absolutamente nada, até porque o “engasgamento” do avião não teria, obviamente, os mesmos efeitos acontecendo de surpresa ou estando o piloto para isso previamente preparado.

O que importa reter do exposto: sem pôr em causa as palavras de Fernando Farinha Simões, há outras conclusões a que se pode chegar:

  1. A evidente cumplicidade de Mário Soares nesta conspiração de Frank Carlucci (e pela CIA) contra as vidas de Adelino Amaro da Costa e Francisco Sá Carneiro. É de crimes de sangue que se trata e dos quais não se deve eximir. É, desde logo, a primeira forte suspeita que resulta.
  2. Houve uma sórdida manobra política de “travestimento”, convertendo, com descaro, expoentes do anti-“sá-carneirismo” em campeões do “sá-carneirismo”, com o mais que óbvio objectivo de pescar em águas turvas. E que houve o apoio da CIA nesse propósito.
  3. A campanha pró-acidente, partindo de um pressuposto agora tido por verdadeiro, teve por objectivo lançar a confusão e baralhar os dados. Foi quase uma manobra perfeita de contra-informação, que incluiu, inclusive, tiros disparados nas proximidades do necrotério, propositadamente com nenhuma pontaria, sobre um destacado militante do PCP, que quis “alimentar” este partido no interesse sobre o caso de Camarate. O envolvimento de eventuais cúmplices neste caso teve em vista criar a confusão e apagar pistas. Com elementos num lado e doutro, foi fácil à CIA mexer todos os cordelinhos, dar golpes e contra-golpes, nas sucessivas Comissões de Inquérito do “caso Camarate” . Basta verificar que alguns dos agora implicados no atentado e dele tinham, portanto, conhecimento de causa, estiveram entre os maiores advogados e defensores da tese “atentadista”.
  4. Houve envolvimento de “militares de Abril”, alguns ditos “revolucionários”, no negócio de armas, os quais estavam sob a mira de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa (isso era um “segredo de Polichinelo” e o atentado quis apagar a pista dos respectivos documentos – a pasta de Amaro da Costa. De resto, o envolvimento de militares “revolucionaristas” explica muito do acontecido no chamado PREC).
  5. A CIA (e o “amigo americano”) é descarada inimiga do povo português e exige-se tudo fazer para que ela seja extinta e os seus crimes levados ao julgamento público.

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