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Fev
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IGREJA GASTA MILHÕES EM PROJECTO MILIONÁRIO DE COMBATE À PEDOFILIA

Onde se recordam casos de abusos envolvendo elementos e instituições da Igreja em Portugal. À baila, ressalta uma reportagem  sobre o «silêncio das sotainas» no Seminário de Beja e a história de um capelão do Santuário Fátima preso no Basil por algemar um  jovem, forçando-o a práticas sexuais

Passou praticamente despercebido: a Igreja Católica apresentou durante uma conferência realizada em Roma, no passado dia 9, um projecto milionário que tem por objectivo o recurso à internet no combate à pedofilia.

Através de uma página na internet, em várias línguas, são apresentados vários conselhos e faz-se acesso a pesquisas sobre pedofilia e como reagir a um assédio.Foi também criado o site  “Centro para a Proteção Infantil”, com a colaboração de universidades e instituições médicas em alemão, inglês, francês, espanhol e italiano.

O objectivo visa ajudar clérigos a erradicarem a pedofilia de suas igrejas em todo mundo e a protegerem os menores de potenciais abusos. Durante a conferência, o padre François-Xavier Dumortier esclareceu que o projecto teve um custo de 1,2 milhão de euros (1,6 milhão de dólares). Brendan Geary, da ordem dos Irmãos Maristas referiu que a Igreja iria começar a ouvir as vítimas e escutar suas experiências. «Asseguramos que a Igreja tenha os mais elevados padrões para a protecção das crianças», acentuou.

A lógica desta iniciativa parece relacionar-se como uma resposta dada pela Igreja Católica às crescentes denúncias de abusos de menores cometidos por padres.Uma associação de vítimas de abusos  chegou mesmo a acusar este evento de ser apenas uma espécie de fachada promocional e que o Vaticano deveria entregar ao Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, toda a documentação que possuir sobre os abusos, informou a Reuters.

A associação reforçou a acusação que membros do alto clero da igreja acobertam crimes de pedofilia, a fim de proteger a imagem da igreja. Segundo os dados que consultámos, entre 2001 e 2011 foram promovidas cerca de 3 mil acusações a  padres pedófilos. O próprio  Papa, Bento XVI foi acusado em Março de 2003 de ter  acolhido um padre pedófilo quando era arcebispo de Munique, para que fosse tratado num hospital psiquiátrico

Bento XVI chegou a reconhecer, em declarações durante audiência com bispos americanos que visitaram o Vaticano no final do ano passado, que a pedofilia é um «flagelo» para a sociedade e que as décadas de escândalos de membros do clero abusando de crianças deixou os católicos aturdidos.

Estima-se que o valor das indenizações e o custo ligado às investigações,   julgamentos e aos tratamentos das vítimas tenha levado a Igreja Católica a desembolsar 2 bilhões de dólares,

Uma comissão investigadora independente da Holanda, a Deetman, divulgou este mês  que milhares de menores foram vítimas de abusos sexuais em instituições da igreja católica no país entre 1945 e 2010.A instituição afirma que a pesquisa foi realizada com 34 mil holandeses, católicos ou não, após 1,8 mil reclamações de abusos por parte dos religiosos. Com os resultados apurados, estimam que entre 10 e 20 mil menores tenham sido vítimas.O número equivale a estimativa que uma em cada cinco crianças holandesas sofreram algum tipo de abuso sexual.De acordo com o relatório, os casos eram “conhecidos pelas ordens religiosas e pelas dioceses da Igreja Católica holandesa”, que não “tomou atitudes adequadas” e aconteciam em escolas, seminários e até orfanatos católicos.Foram identificados 800 padres, pastores e outras pessoas ligadas à Igreja como suspeitos de cometerem abusos. Pelo menos 105 delas ainda estão vivas, mas não está claro se ainda ocupam cargos na Igreja.

Padre pedófilo preso no Brasil foi capelão em Fátima

Em Portugal, a sensação que existe é muitos casos de abusos envolvendo elementos e instituições ligadas à Igreja estão no segredo dos  deuses, ou seja, confinados aos locais onde os abusos são praticados.Em muitos casos, os crimes ocorrem em lugarejos recônditos onde a denúncia esbarra com a vergonha social demonstrada pela vítima e os seus familiares que vêm na Igreja  e o seu «serventuário»figuras  intocáveis.Mas um dos maiores escândalos ocorreu em 2010, quando se soube que um padre estrangeiro detido no Brasil por ter algemado e obrigado um adolescente a práticas sexuais foi capelão durante um ano no Santuário de Fátima. A informação foi confirmada pela Diocese de Leiria-Fátima,.

Marcin Strachanowski, 44 anos, foi detido no Brasil, por determinação de um Tribunal de Bangu, no Rio de Janeiro, acusado de ter algemado um jovem de 16 anos a uma cama, obrigando-o a praticar sexo oral, depois de o despir, na casa paroquial da Igreja do Divino Espírito Santo de Realejo.

O silêncio das sotainas

Um caso relatado pelo jornalista Alte Pinho no semanário «o Crime» levou-o à descoberta da cumplicidade de sectores da Igreja Católica Apostólica Romana com as perversões, desejos e práticas abjectas de «gente de boas famílias» tendo por palco o Seminário de Beja Foi num período que se seguiu ao 25 de Abril – mas onde já o poder do latifúndio havia regressado, após o sobressalto do PREC, ainda mais arrogante, à planície alentejana -, mas que criou marcas indeléveis nos locais onde ocorreram e nas memórias das vítimas.

Segundo o jornalista, durante anos o Seminário de Beja escondeu vícios privados e ostentou públicas virtudes. Senhores muito beatos da região estenderam a sua «caridade» à inocência e à miséria de meninos pobres que ficaram marcados para toda a vida. O manto protector das sotainas, ainda na altura da investigação – decorridos tantos anos das iniquidades -, foi cúmplice de silêncios imemoriais. A religiosidade do povo alentejano, aos poucos e timidamente, procurava resgatar Cristo da ignomínia de seus ardentes devotos.

Transcrevemos o escrito, brilhante e desassombrado de Alte Pinho baseado em dados colhidos no local. Um caso mergulhado no esquecimento e que bem poderia ter dado lugar a uma história escandalosa com contornos semelhantes ao processo Casa Pia…ou não tivesse a instituição em causa grandes poderes na sociedade portuguesa…

«A cidade recebeu-nos prazenteira e simpática à nossa circunstância de forasteiros. O povo alentejano é caloroso, sendo a sua abertura reconhecida por todos os que demandam a essas bandas. Há, no entanto, alguns «códigos» que devem ser respeitados e a sua intimidade dificilmente é exposta à curiosidade dos forasteiros, principalmente quando se trate de jornalistas. Há alguns esqueletos guardados no armário que a patine do tempo teima em fazer esquecer. E há uma mágoa guardada, bem escondida na vergonha sentida e marcada – como ferrete – do passado.

«O latifúndio não foi, para os alentejanos, um mero sistema de desigualdade e injustiça na distribuição de propriedade a sul do Tejo. Foi mais que isso. Constituiu um punhal cravado na honra de cada homem e de cada mulher que, juntamente com a terra, eram propriedade de senhores poderosos. Não muitos decénios atrás, ao senhor da terra assistia uma espécie de direito ancestral a «tirar o cabaço» às raparigas. Para além da força de trabalho extenuada à jorna de sol a sol, a entrega tinha de ser total: a virgindade das moçoilas também havia de ser parte do inventário, da arrogância e da vaidade do agrário.

«E importa falar desses tempos para que se perceba toda a lógica de silêncios e cumplicidades que medra, ainda hoje, em terra alentejana. Uma terra e um povo de grande religiosidade, ao contrário do que possa parecerem pela redutora análise política de movimentos sociais e influências ideológicas. Ao mesmo tempo, uma sólida consciência anticlerical perpassa a mente da maior parte das gentes, fruto de uma memória histórica que cola o clero à sombra das benesses doa poderosos e à guarda conveniente e afagadora dos poderes públicos. Salvo raras excepções, os padres não são benquistos das gentes alentejanas.

«Em fim-de-semana tórrido de quase vinte anos atrás, Filipe (nome fictício) deixa as vetustas paredes do seminário para, com a alegria da sua puberdade inocente, ir passar o dia a casa de um benemérito, pessoa muito ligada à Igreja e à caridade, assim uma espécie de protector de órfãos e desvalidos… Na herdade, a poucos quilómetros de Beja, quem vai para a aldeia de S. Brissos, esperam-no iguarias e senhores simpáticos… Apesar de lhe tocarem “nas partes” e lhe darem beijos repenicados e insistentes, o miúdo nunca nessa altura percebeu ser ele – e não os pratos servidos no repasto – a iguaria.

«Só tomei consciência de tudo quando, já adolescente, me apercebi que o carinho e afecto dos adultos não deve ter expressões dessas nas crianças», disse-nos Filipe. Ainda hoje, largado o seminário «por inexistência de vocação», casado e pai de filhos, este homem tem dificuldade em lidar com os seus medos, com esse lado obscuro de um passado que lhe roubou a inocência. Nunca mais passou junto à herdade, que entretanto mudou de proprietários, e dificilmente nas suas idas a Beja consegue olhar, sem que uma lágrima lhe aflore o rosto, as paredes de uma sobriedade ostensiva em que se ergue o Seminário Diocesano de Nossa Senhora de Fátima (assim se chama com todas as letras, em rigor da verdade). É que, dentro dessas mesmas paredes, desses muros de silêncio cúmplice, foi também alvo da rapina libidinosa de quem usava «em vão o nome do Senhor» …

Na cidade comentava-se na altura – e, ao que sabemos, ainda hoje -, esse passado negro da instituição secular e recordam-se os silêncios dos vários poderes. E ainda se falava das actividades de um sacerdote, responsável por uma instituição de acolhimento de estudantes, que continuava – qual predador -, pesem embora os escândalos de pedofilia que, à época, assolavam a capital, a perseguir jovens e a seduzir meninos a troco de prendas, comprando a sua inocência e a sua pobreza. Todos sabiam, todos calavam, todos eram cúmplices voluntários ou involuntários. A começar pelas autoridades, a quem essas actividades não eram alheias, mas que cobarde e criminosamente continuavam a olhar para o lado.

Pedro (nome fictício) também conheceu a herdade e, como Filipe, saltitou a sua inocência no regaço dos senhores. Confrontado com factos, datas, locais e práticas que só quer esquecer, reagiu com um choro compulsivo e quase silencioso, ao mesmo tempo que seu corpo se via possuído de um tremor antigo feito de vergonha e de dor. Continua ligado às coisas da Igreja, não seguiu o sacerdócio porque, por altura da adolescência, a sexualidade despertou abrupta e vivificada – regeneradora mesmo – nos amores clandestinos de uma senhora mal casada. Separações consumadas – a dela com o marido, a dele com o passado -, partilhavam um pequeno apartamento na margem sul do Tejo, mesmo ali em frente ao elefante branco que foi a Lisnave. Pedro não fala, mas procura resgatar Cristo dessa ignomínia despudorada de sacerdotes que escondem velhos segredos pecaminosos na franja das sotainas…

O então – à época da nossa investigação – reitor do seminário de Beja, padre Manuel Rosário, disse-nos: “Há dez anos atrás encontrava-me no estrangeiro”. Curiosamente, ao contrário de parte substancial do povo da velha urbe alentejana, desconhecia “por completo o assunto”… E esta posição, ao mesmo tempo cautelosa e contraditória, ilustrou a mundivivência da cidade e os silêncios que lhe subjazem. Em privado, longe de um comprometedor gravador ou de uma inconveniente máquina fotográfica, todos eram unânimes em ratificar histórias de abusos e vilanias. Mas calavam em público – numa cumplicidade negligente – o que era de seu foro privado, de conversas em família, ou em tertúlias de cafés da baixa.

A cidade de Beja, palco de tantas irreverências revolucionárias, calava-se à ignomínia maior do rasgar das inocências e do desflorar das alegrias soltas desses filhos do povo que nunca foram meninos. Pior do que a instituição latifundiária, causadora de tanta fome e de tanta dor, é essa memória antiga que todos – os das esquerdas e os das direitas – teimam em esconder nos armários.

A sociedade alentejana, cremos, só se livrará do espectro lúgubre dos esqueletos que transporta na sua história quando, algum dia, se libertar do silêncio cúmplice de seus vícios privados. Vai para dez anos – quando com eles falamos -, Filipe e Pedro foram os primeiros heróis dessa missão histórica…».

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1 Response to “IGREJA GASTA MILHÕES EM PROJECTO MILIONÁRIO DE COMBATE À PEDOFILIA”


  1. 1 http://acincotons.blogspot.com/2012/02/direito-indignacao.html
    Fevereiro 29, 2012 às 1:43 pm

    Eu, Jaime Miguel Pardal Ambrósio, (…), com 32 anos de idade, ontem vi e senti na pele, a crueldade, a falta de escrúpulos e a verdadeira falta de respeito pela condição humana em que a nossa sociedade está mergulhada nos dias que correm! Trabalhei durante 8 anos para FidelidadeMundial (Grupo Caixa Geral de Depositos), sector CallCenter em Évora e passei por várias empresas de trabalho externo e “temporário”, esta ultima com designação RedWare! Nestes anos vi o trabalho e grupo e crescer, ou não houvessem cerca de 50 trabalhadores quando iniciei a minha colaboração e hoje em dia existiam mais de 300!
    Ontem, numa manobra que só identifico como suja, sem carácter, cruel e ignorante, eu e vários colegas fomos “dispensados” dos nossos postos de trabalho. Pessoas com vidas e dependentes a cargo, a maioria com mais de 30 anos de idade, outras com incapacidades físicas (eu, com 70% de invalidez comprovada em atestado de incapacidade), trabalhadores empenhados e que nos últimos anos ajudaram o grupo a crescer, (afinal está mais que comprovado que houve crescimento) estavam no seu normal dia de trabalho, quando fomos, do nada e sem qualquer sinal nem aviso prévio, invitados a parar imediatamente o que estávamos a fazer e a reunirmo-nos numa sala, onde numa explicação muito simples nos foi dito que não estávamos a ser “rentáveis” na óptica empresarial (?) e como tal partir daquele momento não contavam mais com os nossos préstimos (faço a leitura pessoal de que lhes é mais rentável e interessante o trabalho precário, salários desumanos e volumes de trabalho escravisatórios, sempre pautados pela perseguição, pela falta de discernimento e opinião critica, por pessoas robots que não falem e principalmente não tenham poder de contestação) … A crueldade envolvida na manobra é digna de nota, o egoísmo e o sarcasmo utilizado foram, no mínimo, revoltantes, no entanto vivemos períodos em que víboras fazem o que querem, o ser humano é tratado como um simples lixo reciclável, o bastião do capitalismo permite que se destruam vidas (no verdadeiro sentido da palavra), para algum XULO de accionista possa adquirir um BMW topo de gama novo ou ter uma vida regrada de luxos. Deixou de interessar a espécie, só cantam números e o egoismo!
    Sinto-me na obrigação moral de declarar publicamente que abomino completamente este tipo de atitudes, sei que pertenço à classe superior, pertenço ao grupo dos altruístas, daqueles que se preocupam e respeitam o próximo! Episódios destes deviam ser condenados em praça publica e da forma mais inquisitória possível, são atentados à liberdade e aos direitos, não só dos trabalhadores, como do ser humano! Em período de pseudo-crise, os esforços para a solução magna, são contrariados por estes grupos venenosos e parciais e principalmente, mal geridos, resultado da existência de seres baixos e inqualificáveis nas suas fileiras!
    Já passei por dificuldades e situações que a maioria não sonha e sei que neste momento, estou (e também os meus colegas) na pior de todas elas e o único alivio que me aquece a alma é saber que não vou voltar a olhar para aqueles rostos mesquinhos e ignorantes e ter de concordar com tomadas de decisões que são hinos à ignorância!
    Não lhes desejo muito mal…só uma vida e morte repleta de sofrimento…
    RESPEITO!!!!!!
    (permito que seja partilhado por quem entender, na esperança que consciências tomem vida, qual grilo do Pinóquio e que não torne irreversível a morte do respeito humano…)

    Jaime A.
    Évora, 25.2.2011


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