06
Jan
12

Um vídeo chantagista

«Secreta» acima de todas as suspeitas ou a história de uma «carta» fora do baralho

Numa altura em que se fala tanto de secretas e dos seus segredos, vem a talhe de foice lembrar um episódio do conhecimento pessoal – e não só… – do autor deste « blogue» que reporta a um vídeo tirado à socapa em Luanda e que pode explicar os contornos de alguns «milagres económicos» que ocorreram nos últimos tempos cá no «rectângulo», esses sim, importantes para explicar certas ligações e progressivas conquistas. Esta parece-nos ser matéria de relevância pública, curiosamente, negligenciada pelos media que agora se encarniçam em destruir a Secreta.

O caso foi-nos relatado por Ramiro Ladeiro Monteiro (na foto), o fundador do Serviço de Informações e Segurança (SIS), entretanto já falecido e, por isso, não temos quaisquer pruridos de ordem ética ou deontológica em tornar esta história pública.

Na Administração Pública desde 1958, Ladeiro Monteiro esteve ligado ao Instituto de Assistência Social de Angola e dirigiu o gabinete civil dos Serviços de Coordenação e Informação de Angola. A experiência neste último cargo teve um “forte peso”, segundo Ângelo Correia – ministro da Administração Interna da AD –, para a sua nomeação, não só como director do SEF, mas também como líder do SIS. Talvez reminiscências da sua actividade na função pública – que serviu à moda antiga, ou seja, com lealdade, patriotismo e zelo – logo que Ladeiro Monteiro tomou posse no cargo das «secretas», choveram criticas à sua nomeação, principalmente vindas dos sectores da esquerda, que encaravam o organismo quase como uma réplica da PIDE. Um relatório do Ministério Público elaborado nos anos noventa, apontava mesmo o SIS, detentor de «um preconceito ideológico» contra os partidos da esquerda, alinhavando um cenário «complexo» das suas actividades, «muito próximas em alguns aspectos, de um quadro mental típico do estado Novo».

Ladeiro Monteiro chegou-nos a desabafar algumas inconfidências. Como às pressões que então recebeu – era então ministro da Administração Interna, Dias Loureiro – para que o serviço por si tutelado privilegiasse a elaboração de dossiês detalhados sobre figuras de vários quadrantes, da política ao meio empresarial, a vigilância sobre sindicalistas e dinamizadores de «manifs», ou seja, dossiers que ultrapassavam o âmbito para que fora criado o Serviço.

Costa Freire, ex-secretário de Estado da Saúde, chegou a ser investigado pelo SIS a propósito das alegadas actividades pouco lícitas a que estaria ligado, a pedido do gabinete do então primeiro-ministro Cavaco Silva. Ficámos com a percepção que Ladeiro Monteiro detestava métodos que não se integravam nos objectivos para que foram criados os serviços de informação em Portugal, sendo utilizados os seus meios operacionais e logísticos em estratégias de controlo do poder político, algumas vezes, de formas obscuras e censuráveis. Que era um homem atormentado entre o dever e as pressões de que era alvo.

Já depois de ter deixado o seu cargo, para abraçar a carreira de docente universitário na Universidade Autónoma de Lisboa, Ladeiro Monteiro fez-nos uma espantosa revelação durante um almoço na Baixa lisboeta e no qual esteve igualmente presente um homem que, na «blogosfera», se tem notabilizado, também ele, na denúncia de casos «secretos» que vão conspurcando a democracia. Contou então que um operacional do seu serviço estava na posse de um vídeo, obtido com câmaras ocultas num hotel em Luanda, onde surgiam políticos em destaque portugueses em actos sexuais com menores.

Ao que parece, elementos poderosos da nomenclatura então vigente na antiga colónia portuguesa, com ligações à antiga «secreta» DISA, usavam o filme clandestino como arma de chantagem sobre políticos nacionais na obtenção de contrapartidas económicas. A estupefacção demonstrada pelos dois interlocutores do responsável das secretas foi grande. E foi maior quando o antigo responsável da secreta referiu que a «fita» estava a ser comercializada em Portugal por um valor a rondar os 5 mil euros cada cópia. E não faltaram os interessados em adquiri-la, entre eles, uma das eminências pardas do regime, ao que se julga saber, com ligações a forças de pressão na sociedade, com capacidades invulgares de lançar putativos candidatos a governantes, de interceder em processos judiciais mediáticos, ou, simplesmente, de ser um dos mais respeitáveis «opinion makers», com presença assídua nas TV e jornais.

O resultado desta trama, foi a promoção do operacional na hierarquia do Serviço e a crescente entrada no mercado financeiro e empresarial português dos capitais angolanos.

A sensação com que ficámos foi que, gradualmente, Ladeiro Monteiro se tornou num alvo a abater, seja por guardar demasiados segredos de Estado para os homens que têm detido o poder desde a Revolução, ou por se recusar a entrar em certos jogos que nada tinham a ver com os objectivos do serviço que dirigia.

Com a sua morte, ocorrida em 3 de Maio de 2010, muita gente neste país deve ter suspirado de alívio.

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1 Response to “Um vídeo chantagista”


  1. 1 Psinik
    Maio 5, 2012 às 9:49 pm

    Peço-lhe que divulgue, se possível, o endereço do blog (também sobre «segredos») a que se refere no seu post.
    Aproveito para louvá-lo pelo trabalho que tem desenvolvido neste blog: apesar de agora o vermos como muito mais complexo, o mundo, tornou-se um bocadinho mais compreensível.
    cumprimentos.


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